Todos temos um Propósito de Vida?

 

Jovem mulher diante de um caminho que se divide em várias direções numa paisagem natural luminosa

Quando ouvimos falar em propósito de vida, é fácil imaginar que existe uma grande missão à nossa espera. Algo extraordinário que viemos cá fazer e que, quando finalmente o descobrirmos, dará sentido à nossa existência.

Talvez seja precisamente esta ideia que torna o conceito tão pesado para muitas pessoas. E se não sentirmos que temos uma missão especial? E se não soubermos qual é o nosso propósito? E se aquilo que fazemos todos os dias nos parecer demasiado simples para lhe chamarmos propósito?

A verdade é que ter um propósito não significa estar destinado a realizar algo grandioso. O propósito é muito mais próximo, simples e humano do que habitualmente imaginamos: está naquilo que nos realiza, no que fazemos com intenção e no que nos faz sentir que a nossa vida está em coerência com quem somos. E não é fixo, muda de forma à medida que nós mudamos.

Então, todos temos um propósito de vida? Neste artigo, vamos perceber o que ele realmente significa e como o podemos reconhecer no dia a dia, mesmo quando não se parece com uma grande missão.


O propósito não precisa de ser uma grande missão

Existe uma tendência para associarmos o propósito de vida a algo extraordinário. Imaginamos pessoas que descobriram uma grande causa, que deixaram uma marca no mundo ou que transformaram a vida de muitos outros. Por comparação, aquilo que fazemos parece-nos pequeno demais.

Mas o propósito não se mede pelo impacto que tem aos olhos dos outros.

Uma pessoa pode encontrar sentido na educação dos filhos, no cuidado da família, na criação de um jardim, no trabalho com animais, na escrita ou no ensino. Há quem o encontre no voluntariado, numa amizade em que sabe estar presente, num projeto criativo ou simplesmente na forma como cuida da sua casa. Em todos estes casos, o que conta é que a atividade permita usar os próprios talentos, sentir-se útil e terminar o dia com a sensação de que se fez algo que verdadeiramente importa.

Também pode surgir numa profissão que a sociedade pouco valoriza. Há trabalhos essenciais, frequentemente mal remunerados ou pouco prestigiados, que ganham outra dimensão quando são realizados por alguém que os desempenha com competência, dedicação e orgulho no que faz. Pensemos, por exemplo, numa funcionária de limpeza que deixa cada divisão como gostaria de a encontrar, ou num motorista de autocarro que cumprimenta cada passageiro com simpatia. A tarefa é a mesma que milhares de pessoas fazem, mas a atenção e o brio que lá colocam transformam a experiência de quem beneficia do seu trabalho.


Mulher a limpar uma mesa com atenção e dedicação numa sala iluminada


Isto não significa ignorar as desigualdades nem aceitar condições de trabalho injustas. Significa apenas reconhecer que o sentido que alguém encontra no que faz não depende do estatuto, do rendimento ou do reconhecimento que essa atividade recebe.

O propósito nasce da combinação entre aquilo que somos, aquilo que sabemos fazer e aquilo que sentimos que vale a pena oferecer. Nem sempre será grandioso. Nem sequer precisa de ser visível para os outros.

Por vezes, o que dá sentido à nossa vida não é mudar o mundo, mas fazer bem aquilo que, para nós, merece ser feito.


O propósito não é necessariamente uma profissão

Quando pensamos em propósito de vida, é frequente perguntarmo-nos: “Será que estou na profissão certa?” Embora o trabalho possa ser uma das formas de expressarmos o nosso propósito, não é a única.

Podemos encontrar sentido naquilo que fazemos profissionalmente, mas também no cuidado que dedicamos a quem nos rodeia, nas relações que construímos, naquilo que criamos ou simplesmente na maneira como escolhemos viver.

Há quem goste do seu trabalho e sinta que ele lhe permite concretizar aquilo que considera importante. Há quem o encare sobretudo como um meio de sustento e encontre o seu sentido mais profundo noutras áreas da vida. Nenhuma destas situações é menos legítima.

O propósito não precisa, por isso, de caber num cargo, numa profissão ou num currículo. A pergunta não é apenas “O que faço?”, mas também “Para quê e de que modo escolho fazê-lo?”

Talvez, então, a pergunta mais útil não seja “Estou na profissão certa?”, mas “A minha vida, no seu conjunto, reflete aquilo que é importante para mim?” É nessa mudança de pergunta que se percebe que o propósito está mais ligado ao modo como vivemos do que àquilo que fazemos para ganhar a vida.


O propósito também muda ao longo da vida

Se o propósito não é necessariamente uma grande missão nem está obrigatoriamente ligado a uma profissão, também não precisa de ser uma resposta definitiva.

Nós mudamos. Mudam as nossas circunstâncias, as nossas prioridades, os nossos interesses e aquilo que valorizamos. É natural, por isso, que aquilo que dá sentido à nossa vida mude também.

Uma atividade que nos realiza numa fase da vida pode deixar de nos preencher mais tarde. Um projeto cumpre a sua função e dá lugar a outro. Há fases mais centradas em construir (uma carreira, uma família, um projeto) e outras em que cuidar, aprender, criar ou simplesmente estar presente ganha maior importância. E a ordem não é igual para todos.

Imagine-se, por exemplo, uma pessoa que durante anos encontrou o seu propósito na carreira, depois no cuidado dos pais e, mais tarde, em orientar quem está a começar. Não houve um propósito certo e outro errado: houve respostas diferentes a momentos diferentes.

Estas transições nem sempre são confortáveis. Surgem muitas vezes depois de uma perda, de uma mudança profissional ou da reforma, e trazem por vezes uma sensação de vazio ou de incerteza. Essa incerteza não significa que tenhamos perdido o rumo ou que o propósito anterior estivesse errado. Quer dizer que estamos a responder de forma diferente à pessoa que somos agora.

Uma pergunta útil, para fazermos de tempos a tempos, é: “O que é que me faz sentido agora?”

Não tem de ser uma resposta definitiva, apenas a de hoje.

É mais útil pensar no propósito como um caminho que se vai revelando à medida que vivemos, e não como um destino que precisamos de descobrir de uma vez por todas.


Então, todos temos um propósito de vida?

Não podemos afirmar que todos nascemos com uma missão ou um propósito previamente definido, à espera de serem descobertos. Mas todos temos a possibilidade de construir uma vida com sentido.

É isso que torna o propósito uma questão tão pessoal. Para algumas pessoas, está profundamente ligado ao trabalho que realizam. Para outras, encontra-se sobretudo na família, naquilo que criam, no cuidado, no conhecimento, na relação com os outros ou numa atividade que lhes permite expressar aquilo que são. E não precisa de ser grandioso, de coincidir com uma profissão nem de ser definitivo.

Viktor Frankl, psiquiatra, sobrevivente de campos de concentração e fundador da logoterapia, colocou o sentido no centro da existência humana. No livro O Homem em Busca de Sentido, defende que o sentido pode ser encontrado naquilo que fazemos ou criamos, naquilo que vivemos e amamos, e na atitude que adotamos perante o sofrimento que não podemos evitar. A sua perspetiva lembra-nos que o sentido não depende apenas das circunstâncias que vivemos, mas também do modo como nos posicionamos perante a vida e do que escolhemos fazer com o que nos é dado viver.

Por isso, a pergunta não precisa de ser “Qual é o meu grande propósito?”, como se existisse uma única resposta certa para toda a vida. Pode ser simplesmente:

“O que dá sentido à minha vida nesta fase e como posso viver de acordo com isso?”



Casal jovem a caminhar junto ao mar numa praia ao pôr do sol


A resposta pode ser mais simples do que imaginamos, como fazer com gosto e dedicação aquilo que sabemos fazer. E pode mudar.

Não é preciso procurar uma missão extraordinária quando aquilo que procuramos pode estar, afinal, no modo como escolhemos viver o que temos diante de nós.


Momento de Reflexão

  • O que faz atualmente que lhe dá uma verdadeira sensação de realização, mesmo que pareça simples ou pouco valorizado pelos outros?
  • Que atividades, relações ou formas de contribuir estão mais em coerência com quem é e com aquilo que considera importante?
  • Se sentir que o seu caminho atual, profissional ou pessoal, já não faz sentido para si, que pequeno passo pode dar esta semana para viver com mais sentido?

Se quiser aprofundar esta descoberta, pode continuar este percurso no artigo “Descobrir o Propósito de Vida: Guia completo”,


Banner do Percurso de Transformação "Conhecer-se para se Transformar", dedicado ao autoconhecimento, descoberta do propósito de vida e desenvolvimento pessoal







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